Três décadas de uma alma irresponsável

Trinta anos. Caralho! 

Eu realmente nunca havia feito uma projeção sobre como seria chegar nessa idade; ninguém de fato pensa, eu acho. Se pensei em planos? Sim, pensei muito, mas, claro (risos) que nem metade eu realizei – eu me sinto ótimo em todos os aspectos e, agora, sinto que estou apto a encarar muita coisa que antes me dava um medo danado. Pois bem, não era sobre sonhos que eu gostaria de falar; eu queria falar com você que vai se identificar com esse texto, porque de fato eu estou aqui onde estou por sua causa.  

Eu me recordo de quando eu ia na rua de baixo da minha casa, numa praça, brincar com a molecada; jogávamos bola, pega-pega, esconde-esconde (e valia se esconder até em quadras distantes) e todas aquelas brincadeiras de criança. Hoje eu tenho trinta anos e nem todos eu vejo mais, ou nem sequer estão mais nesse bairro, nessa cidade ou no mesmo plano existencial que eu. Salvo alguns contatos que ainda tenho até hoje, a maioria dissipou-se como algodão doce na água.  

Eu me recordo dos jogos de taco (ou “Bets”) que fazíamos na pré-adolescência/adolescência aqui na rua de casa mesmo e, uma certa vez, eu quase quebrei o nariz da minha irmã com uma tacada errada. Era bolinha na janela dos vizinhos, nas costas de pessoas que passavam; uma parafernalha das melhores. E, quem diria, que hoje em dia, de vez em quando, eu e alguns amigos ainda jogamos. Hoje eu tenho trinta anos e nem todos eu vejo mais, pois a vida deu rumo para cada uma dessas pessoas que fizeram parte desse período. Eu realmente não sei o paradeiro da metade desse pessoal, mas espero que estejam bem e realizados.  

Eu me recordo dos treinos e jogos de basquete, o qual me dediquei anos e anos – o esporte mais lindo que existe (♥). Eram vários treinos na semana, com umas 3 ou 4 horas de duração. Foi a época mais divertida da minha vida (até agora, né?) e eu juro que a minha mão coça todo dia querendo bater uma bola laranja de oito gomos por aí. Sobe um nó na garganta só de lembrar.  Hoje eu tenho trinta anos e de vez em quando eu ainda jogo nas quadras por aí com uma galera legal (♥), mas que em sua maioria não são os mesmos da época que eu treinava.  

Eu me recordo de quando saia aos finais de semana a noite para conversar com a galera na praça (quem diria que até hoje por vezes), que foi quando o meu quadro atual de amigos começou a ser definido, quando essa galera imensa que eu tenho por perto foi se juntando. Hoje eu tenho trinta anos e creio que tenho a melhor roda de amigos de todos os tempos.  

Eu me recordo das visitas dos familiares em várias épocas do ano.  

Eu me recordo (todos os dias) dos meus pais.  

Eu me recordo de todos os cães que passaram pela minha vida. Um gato também. 

Eu me recordo de toda paixão.  

Eu me recordo. Não com tanta clareza de algumas coisas, mas minha boa memória me concedeu a oportunidade de lembrar muita coisa bacana.  

E se você recordar de algo aí em cima, ou fez parte desses períodos enunciados, eu tenho muito que te agradecer por me ajudar a formar a pessoa que sou, a pessoa que se sente bem recebida por todos, onde quer que eu vá.  

Hoje eu tenho trinta anos e me sinto infinito feito universo.

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Custa zero centavo ser legal 

 

 

Ser gentil é um ato heróico; não porquê você tem uma capa maneira, usa cueca vermelha por cima da calça, ou consegue mover montanhas com telecinese. A ficção nos faz pensar – por mais vezes que gostaríamos – que não podemos salvar o mundo quando quisermos, pois não somos capazes disso, e não temos o apoio de uma liga com poderes extraordinários, que nem todo dinheiro do mundo pode reagir à centelha da mudança benigna. A ficção é uma faca de dois gumes bem afiados: acende a chama e, quase sempre ao mesmo tempo, quando tomamos aquele impulso, nos joga uma balde d’água gelado.  

Pois bem; tenho duas coisas a dizer sobre os fatos supracitados.  

  1. Você não pode mover pedras com a mente (se quiser; treine mais). 
  1. Você deve manter o impulso em sem gentil.  

Às vezes aquela pessoa, que estava à beira de um colapso, ou algo pior, mudou de ideia no instante em que fez uma observação contrária ao que estava recebendo do meio alheio em que a rodeia. Autoafirmação é um problema muito sério, que deve ser levado em conta a priori, pois trata-se de – na maioria das vezes – uma fuga ao que é “naturalmente” imposto (moda, padrões, rótulos, tradições abusivas, religião e afins), ou ao que impuseram ideologicamente e acabou por fazer mal a integridade mental da pessoa. Mas também há uma outra vertente bem maldosamente estruturada que não levantarei em questão aqui. Reme contra essa maré! Coloque seus poderes para funcionar!  

Aquele seu conhecido obeso não quer ouvir mais uma piada de mal gosto sobre sua aparência, então você pode elogiar o quanto ele visualmente perdeu peso, ou o quanto ele está empenhado em conseguir. Uma pessoa que comete um ato que põe em risco a própria vida, não quer receber as críticas cotidianas e infundamentadas de praxe, mas torce quando você estenda a mão e a leve para um lugar mais aconchegante e faça ver os lados bons de viver sem ter que usar os mesmos clichês saturados. Demonstre alegria natural em estar ali. Tenha paciência com aquele familiar que não manja das habilidades eletrônicas; ensine, compreenda a dificuldade, enriqueça os pontos não tão bem habilidosamente articulados, para que essa pessoa possa deixar a frustação – que leva a raiva, quando extremo – de lado e ficar feliz em ver que fez progresso com um celular “de última geração” ou simples controle remoto com quinhentos botões para apertar. Deleite-se com a sensação de satisfação da outra pessoa, e como você ajudou nisso.  Enfim; mil exemplos caberiam aqui facilmente, mas sugeri apenas alguns para elucidar que: 

É prazeroso ser gentil. É benéfico para ambas as partes, mesmo que em algum caso, alguma parte seja relutante.  

Seja um(a) super herói(na) sempre que puder, exercendo com todo impulso todos os seus superpoderes. Nem sempre será recíproco, ou ao menos recebido como imaginou, mas, de forma alguma, deixe-se desanimar, porque você pode ser o exemplo de alguém, um espelho a olhar, sabe? Assim como têm seus espelhos também. Faça o dia de alguém melhor, emane as energias boas para o universo, mas não esperar nada em troca – o resultado virá naturalmente, e da melhor forma possível.  

Já pensou em como fazer o dia de alguém melhor?  

Pensa nisso. Seja herói(na) na vida de alguém, para que se alguém seja na vida de outra pessoa também. Você pode salvar o mundo de alguém com apenas um gesto, então não salve só um mundo, procure salvar tantos quantos puder. Gentileza é amor, e o mesmo, pode apostar, ainda é o maior superpoder.  

Namastê. Paz ♥ 

 

Por Guilherme Rocha.  

O copo de bar já não é mais sossego. 

Sentado num banco de bar

Fudido, ferrado

Errado

Me sinto seco

Copo cheio, molhado

Pinga

Em mim

Menos do teto

Sou um resumo de todas as fodas não fodas

Desprazer pertinente 

Melancolia

Persistente 

Estagnado a condição que não queria estar

Me sinto sugado

Nego

Sinto asco 

Por pouco não engasgo

Nessa chuva de bílis em minha mente 

Eu te disse… 

Eu nunca pisaria onde seus pés abençoaram

Sete minutos para meia noite e será tarde demais.

Ontem eu assisti a um filme muito comovente, de peso sentimental imenso, de uma profundidade tão ímpar, que chega a te congelar onde está no final, fazendo com que sua mente fique pensando no quanto o sopro da vida é precioso e o quanto somos frágeis em relação à ação do tempo. O nome do filme é “Sete Minutos Para Meia-Noite”, do diretor Juan Antonio Bayona; primeiro filme que vi dele, mas que já me marcou unicamente.

No filme, o protagonista, um menino chamado Conor, passa por um período tempestuoso em relação ao que sente sobre a saúde de sua mãe: ela estava fadada a morrer de câncer terminal. Um garoto que mal colocou os pés na puberdade se vê obrigado a ser um menino adulto, mas que ao mesmo tempo não é. Sua mãe, ao longo do filme – como deve ser óbvio dito a sentença sobre ela acima – só piora, colocando o jovem adulto Conor em becos que ele mal consegue compreender.

Uma árvore imensa (O Monstro) propõe a ele – ou o obriga – ouvir três histórias e, no final, o menino desolado precisa contar a quarta. O Monstro sempre aparece exatamente sete minutos depois da meia-noite. As histórias sempre remetem ao cotidiano que se tornou conturbado do menino, e cada uma delas, de maneira fantasiosa, expõem um lado crítico do que ele sente no seu cotidiano. Não vou mais me alastrar em relação ao filme, porque é um daqueles que todos deveriam ser “obrigados” a ver, como lição de casa, como lição de vida. Principalmente aqueles que perderam, ou estão prestes a perder uma pessoa para essa doença corrosiva.

 

Eu perdi a pessoa que eu mais amava no mundo para essa doença.

 

Ao longo do filme eu me vi no menino Conor, que não sabia ao certo como lidar com isso e, olha, mesmo eu sendo adulto na época que isso me acometeu, eu também não sabia lidar. Os momentos que antecedem a partida são os piores quando a consciência se dá conta – a contragosto – da eminência do final derradeiro.

Na época eu fiz tanta merda que se Deus existir, ele vai pensar duas vezes antes de tentar me dar uma oportunidade no céu. Os nervos ficam a flor da pele, a cabeça paira em devaneios de esperança e pensamentos negativos. Há dúvida, remorso, receio e uma miscelânea de sentimentos girando na mente.

 

Você não quer ver alguém amado partir.

 

Demorou um tempo até eu entender o significado de como se entregar aos fatos não é vergonhoso ou covarde. Às vezes o egoísmo é protagonista, mas de uma maneira desesperada. Eu queria que os fatos se revertessem, que a entropia ficasse maluca e fizesse seu trabalho ao contrário. Eu trocaria de lugar por ela. Sem nem pensar meia vez.

 

Quando você ama alguém mais do que si mesmo, você faz ou pensa em coisas malucas. A partida dói.

 

Anos depois, atualmente, no caso, eu tenho uma outra visão em relação à morte, em relação à vida, em tudo que envolva o simples fato de existir aqui na Terra. O maior medo de Conor era ver sua mãe partir – assim como o meu –, porque isso não era aceitável em sua condição sentimental. Mas, o melhor era deixar a vida seguir seu curso natural e aprender com isso. Às vezes, largar a corda é a melhor solução, deixar partir aquilo que te aborrece, no sentido de que fazendo isso, você libertará a pessoa também.

 

Não somos dono da vontade alheia. Não podemos ser obrigar só porque não queremos que isso aconteça.

 

E isso é algo aplicável para qualquer situação na vida, onde há mais de uma pessoa envolvida; não no jogo de “vida ou morte”. Ela partiu e descansou, deixou meu coração em pedaços, mas nunca foi culpa dela. A culpa nem sempre tem dono. Não há culpados quando você se liberta e, consequentemente liberta o outro.

 

Às vezes é melhor deixar partir.

 

Ame e demonstre. Abrace. Beije. Faça mimos. Seja presente. E, principalmente: não seja egoísta.

Assista ao filme. Devore seus medos. Encare.

Abraço.

Paz, meu amigos. Paz. ♥

 

 

Esse texto diz tanto que nem sei como não tem seu nome.

“… e ninguém pode imaginar o que ela está a escutar, olho quase fechados, mente em outro lugar. Em seu ouvido vedado ao menos existe alguém. Entendeu?”

Hoje eu acordei numa “bad” insistente que  me deixou amuado devido alguns fatos da noite anterior, muito conturbada, por ações minhas e situações alheias. “Eu sou uma esponja que absorve tudo”; talvez eu seja uma esponja às vezes também. E isso é assustador às vezes, porque nem eu mesmo consigo absorver o que vem de mim mesmo – permeia na minha cabeça, em círculos viciados, como uma roda gigante na velocidade do som que ninguém pode parar.

O mundo é quase sempre uma tempestade caótica espalhada em pedações por aí. Quando alguma parte me atinge, eu recorro à música como válvula de escape. Não que eu só ouça música quando estou na pior, mas em certos momentos ela é efetivamente essencial. Então, como de praxe, coloquei Dance Of Days para tocar – fones de ouvido, volume no máximo, caminhando por aí – e fui encarar o dia, que me abraçava sem jeito, anunciando uma jornada de trabalho cansativa ao fim dele.

A música é essência de pelo menos metade de mim. Por vezes mais.

Impressionante como ouvir música – que gosta, é claro – pode mudar qualquer situação, seja ela boa ou ruim. O poder de penetrara alma, acalentar o peito apertado que implora respirar. Se ela nunca te tocou assim, você está ouvindo as “playlists” erradas.

“Interlúdio Para Um Bar de Estrada Por 33 Anos Fora do Mapa” é a minha primeira opção – em dias como esse – porque essa música parece que consegue ler a pessoa que sou, aquela que eu deveria lembrar de ser, de como eu tenho que parar de cometer os mesmos erros, sem perigo de cair em algum abismo e os remos do meu barco quebraram. “Tudo bem, você está a deriva nesse mar escuro, mas você ainda pode nadar”; abandono a embarcação e me jogo na água, usando todas as minhas forças.

Esse é só um pequeno relato meu. Um pequeno exemplo de como a música pode mudar qualquer coisa.

Eu desejo do fundo do meu coração que você tenha um ótimo dia hoje, amanhã e sempre – mesmo que isso soe clichê demais. Que possa colocar os fones de ouvido, ou ligar o rádio, para que seu coração inunde de essência e sua alma goze do mais intenso prazer.

Música é uma das traduções mais lindas do que é o amor, a meu ver.  É chave que abre portas que você mal imaginava que havia fechadura. Porque “ser gota aqui, sempre foi mais mar”. Sinta-se livre para não apenas ouvir, mas ser música também, da maneira como quiser, contanto que isso te faça bem.

“Eu desafio você a ter uma overdose de felicidade”.

Música é vida.

Vida é amor.

Amor cura tudo. Inclusive qualquer dor aí dentro.

Esses tempos me fez refletir, de como eu nunca havia parado para pensar em muita coisa ao meu redor, no que eu sinto no que eu deveria aprender. Refleti, precisei de muita particularidade, e mesmo que isso me custe algo, eu deveria ser uma esponja tão receptiva quanto ela é. Já até pensei na trilha sonora.

Aperta o play, meu amigo. Abraço.

Paz. ♥

Quando céu azul já não é o bastante

Mirei o horizonte naquela tarde que parecia perdida – acordei seis horas da tarde. O céu estava numa imensidão de azul tão majestoso, que sentia paz ao admirar. Sentia vertigem, a cabeça cheia, mas, aos poucos, ela foi esvaziada e tomada por completo pela imensidão de azul. Eu me senti inteiro, eu me senti vivo, eu senti vida, como se ela realmente valesse a pena, e que nem um exército de bárbaros fedorentos e violentos pudesse me derrubar.

Ultimamente eu tive muitos pesadelos; toda noite uma batalha era travada dentro de mim. Eu sentia que minhas defesas enfraqueciam, a visão esmaecia e qualquer coisa poderia me desarmar. O homem no canto do cômodo me perseguiu, insistindo em sugar tudo o que eu tinha de bom.

 

Sentir-se incapacitado é a sensação mais horrível que existe.

 

Acordava sempre suando – mesmo que a temperatura estivesse a 8° –, desnorteado , sem saber onde estava, tentando identificar inutilmente aquele quarto que dormi quase a minha vida inteira.

Quando seu cotidiano anda abalado, não conseguimos acreditar que há um horizonte azul esperando só porque deu tudo errado. A vida parece conspirar, em complô com o emocional, arquitetando planos mirabolantes. Haja força, haja garra, para tanta guerra interna, tanta dúvida. Você implora por aquela imensidão de azul, mas você sabe, no fundo, que não virá.

No último pesadelo em que, mais uma vez, o homem estranho estava lá, eu senti perder totalmente as forças; entreguei-me sentindo cada membro falhar, cada ligação cerebral ruir.

 

Eu senti muito medo.

 

Não durou muito dessa vez. Fui salvo antes que meu corpo tocasse o chão como uma bigorna, repousando leve como uma pena. Senti calor, como eu nunca havia sentido, me inundando rapidamente. Um toque posterior, carinhoso, no peito. Uma palavra de conforto que, quando aconteceu, não sabia ao certo o que ela havia dito, mas hoje aposto que foi “tá tudo bem”. Entreguei-me aquele sorriso por completo, admirando a mulher em chamas. Foi o bastante para, pelo menos naquele momento, sentir que nada pudesse me atormentar.

Então depois de muito tempo, eu pude sentir que a vida podia se manifestar de várias maneiras, além daquele céu azul.

Eu nunca tinha refletido sobre a palavra “vida” em si, e no quanto ela podia ser – talvez – a palavra mais bonita. Desde a pronúncia e os seus diversos significados. Ela me mostrou isso e de quebra eu tive uma opção melhor para espantar os pesadelos. Também me mostrou uma música muito bonita em que como alguém pode ser, tornar-se, enfim, “alguém para chamar de vida”.

Não é sempre que eu tenho a oportunidade de sentir aquele céu azul para suprir a imensidão calamitosa aqui dentro, mas eu não me preocupo mais tanto com isso. Eu simplesmente fecho os olhos, imagino aqueles olhos castanhos vivos, com seus cabelos em chamas, sorrindo para mim, prontamente me fazendo acreditar que “tá tudo bem”.

 

Porque realmente vai ficar. Porque ela é quem eu encontrei significado para chamar de vida.

Paz, meus amigos. Paz. ♥

Dedicado a Rafaela Christina Ribeiro ♥

Minha filha Preta não enxerga todas as cores

Tudo que olho parece cinza, como um céu de inverno, fim de entardecer, quando o sol já sumiu aos olhos, mas o dia ainda é parcialmente claro.
Uma sequência intrigante de pesadelos me assombrou de maneira derradeira por esses dias; fui aprisionado em minha própria mente pelos meus temores. Acordo, sempre suando a frio, desnorteado, sentindo-me perdido, como se quarto não fosse o meu, e minha estabilidade fosse sugada por alguns instantes – quase infinitos, num período fatídico e curto de tempo.
É aterrorizante a sensação.
Outro dia, num papo sobre essas projeções oníricas, com um amigo, surgiu uma indagação sobre um certo sonho dele. Sonhou que ficava postado a uma torneira que nunca fechava; por mais que tentasse, não conseguia cessar a água que jorrava a esmo, num desperdício sem fim. Sugeri que o significado fosse o quanto dele desperdiçava dinheiro, ou quanto gostava de gastar. Então, ele me disse: estou endividado.
Sonhos e pesadelos, então, são pertinentes às ocasionalidades, vivências e desejos do cotidiano. Isso é óbvio? Eis a questão.
Levamos para a cama todas as nossas preocupações e, sabe, não é fácil deixar de fazer isso. Ao fechar os olhos, assim como o mundo lá fora, a cabeça também não para. Nem a alma, muito menos coração. Talvez a meditação ajude, ou ioga; quiçá, lavagem cerebral, ou uma reencarnação.
Tudo que olho parece cinza. Mas eu gosto de cinza. É uma forma de coragem para colorir e expandir o universo de visão.
Outro dia, numa noite fria que até o diabo fugiria, acordei suando frio. No pesadelo, um homem me olhava, enquanto eu me movia entre cômodos, enquanto ela sentava a copa da casa. Senti meu corpo ceder, aquela presença me consumir, tornado-me incapaz. Cai. Verticalmente. Vendo o mundo girar de maneira irregular. Só via o homem no canto – que não sei quem é -, mas a mulher de cabelos de fogo me salvou, acudindo. Senti uma mão no peito, quente, acolhedora, num misto de expressões, terminando com um beijo e afago que dissiparam a tormenta. (Obrigado).
Ainda vejo tudo cinza, mas como enunciado, como uma possibilidade de colorir, do meu jeito, as adversidades, dificuldades. Às vezes falta cor, falta apoio para colorir, ou consciência para entender que há pessoas tentando colorir tudo que insiste em ver ou pintar de cinza.
Ontem eu sonhei. Sim, sonhei. Num barco a navegar num mar azul, de horizonte promissor.

E não é de todo esse cinza que um marinheiro ou pescador busca a imensidão de azul?

Prefiro ser marinheiro pescador, a desbravar essa beleza ímpar que é cinza, para descobrir a epopéia libertária que é o azul das possibilidades de estar bem melhor.

Desejo um dia cinza para que você possa colorir.

A partir de hoje eu vou colorir de vermelho, como aqueles cabelos de fogo. Vi paz.

Celebramos então pesadelos, que nos dão força ou motivação para encarar as adversidades factuais.

Paz, meus amigos. Paz.