Minha filha Preta não enxerga todas as cores

Tudo que olho parece cinza, como um céu de inverno, fim de entardecer, quando o sol já sumiu aos olhos, mas o dia ainda é parcialmente claro.
Uma sequência intrigante de pesadelos me assombrou de maneira derradeira por esses dias; fui aprisionado em minha própria mente pelos meus temores. Acordo, sempre suando a frio, desnorteado, sentindo-me perdido, como se quarto não fosse o meu, e minha estabilidade fosse sugada por alguns instantes – quase infinitos, num período fatídico e curto de tempo.
É aterrorizante a sensação.
Outro dia, num papo sobre essas projeções oníricas, com um amigo, surgiu uma indagação sobre um certo sonho dele. Sonhou que ficava postado a uma torneira que nunca fechava; por mais que tentasse, não conseguia cessar a água que jorrava a esmo, num desperdício sem fim. Sugeri que o significado fosse o quanto dele desperdiçava dinheiro, ou quanto gostava de gastar. Então, ele me disse: estou endividado.
Sonhos e pesadelos, então, são pertinentes às ocasionalidades, vivências e desejos do cotidiano. Isso é óbvio? Eis a questão.
Levamos para a cama todas as nossas preocupações e, sabe, não é fácil deixar de fazer isso. Ao fechar os olhos, assim como o mundo lá fora, a cabeça também não para. Nem a alma, muito menos coração. Talvez a meditação ajude, ou ioga; quiçá, lavagem cerebral, ou uma reencarnação.
Tudo que olho parece cinza. Mas eu gosto de cinza. É uma forma de coragem para colorir e expandir o universo de visão.
Outro dia, numa noite fria que até o diabo fugiria, acordei suando frio. No pesadelo, um homem me olhava, enquanto eu me movia entre cômodos, enquanto ela sentava a copa da casa. Senti meu corpo ceder, aquela presença me consumir, tornado-me incapaz. Cai. Verticalmente. Vendo o mundo girar de maneira irregular. Só via o homem no canto – que não sei quem é -, mas a mulher de cabelos de fogo me salvou, acudindo. Senti uma mão no peito, quente, acolhedora, num misto de expressões, terminando com um beijo e afago que dissiparam a tormenta. (Obrigado).
Ainda vejo tudo cinza, mas como enunciado, como uma possibilidade de colorir, do meu jeito, as adversidades, dificuldades. Às vezes falta cor, falta apoio para colorir, ou consciência para entender que há pessoas tentando colorir tudo que insiste em ver ou pintar de cinza.
Ontem eu sonhei. Sim, sonhei. Num barco a navegar num mar azul, de horizonte promissor.

E não é de todo esse cinza que um marinheiro ou pescador busca a imensidão de azul?

Prefiro ser marinheiro pescador, a desbravar essa beleza ímpar que é cinza, para descobrir a epopéia libertária que é o azul das possibilidades de estar bem melhor.

Desejo um dia cinza para que você possa colorir.

A partir de hoje eu vou colorir de vermelho, como aqueles cabelos de fogo. Vi paz.

Celebramos então pesadelos, que nos dão força ou motivação para encarar as adversidades factuais.

Paz, meus amigos. Paz.

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