Batalhas. (2)

Passa hoje, mas não passa todo dia, quem dera fosse. Quem dera fosse dia, mas iluminasse todavia, mesmo que numa luz tênue, meus passos fatigados pela rotina, que me desperta às seis com um pontapé todo dia.

E diz: abre o olho, nós mal começamos nossa batalha.

Replico: quem decide sou eu.

Na verdade, e isso me acerta como um saco de cimento na cabeça, não decido nada. Pelo menos eu posso ter a chance de te ver andando do outro lado da calçada, sem perceber, com os fones no ouvido, o olhar baixo, sem me notar. Posso decidir ao menos em que lado da calçada caminhar.

Por mais covarde que isso seja.

E quantos covardes não mudam o mundo todos os dias levando um pontapé repentino às seis?

Todos; menos eu.

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Todo ponto brilhante no céu é o rastro de uma estrela morta.

Qual a pior cilada? O encanto feminino ou o pulsar das veias brancas? Na falta de um, o outro não supre, na falta dos dois, reina um pouco de paz. O pior de tudo é acordar aturdido sentindo a falta dela.

A distância exige muita paciência, essa que sempre tive, mas que se esvai pouco a pouco conforme vejo portas se fechando nos corredores. As chaves abrem portas, as portas delimitam, sentimentos delimitam ao agirem como portas na minha mente.

Traz a vodca e o limão.

Como falar de morte sem pesar? Quantas vezes um final de semana gera um acidente? Quantos acidentes eu acidentalmente cometi sem nem o menos saber disso?

É de querer que o mundo exploda, desintegre, numa entropia acelerada, extinguindo essa infinitude que é tão ilusória quanto o brilho de uma estrela morta.

Hey, Paulinho.

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você
1988

(in: o ex-estranho ,352. Paulo Leminski.)

Desmoronando

O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos”, etc. Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “desce aqui e salva a tua alma” ou “pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido…”. As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.

No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minhas costas. Em vez disso ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento” arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.

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http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,desmoronando-,980007,0.htm – Do mestre Luis Fernando Verissimo