Destruído.

Outro dia uma pessoa muito especial me apresentou uma banda chamada Rubel, e a música era “Quando Bate Aquela Saudade”. Eu amei de primeira, vi o clipe lindo, tanto que me destruiu. Sim, me destruiu por dentro. Eu precisei ficar ouvindo essa música por pouco mais de uma hora e mesmo assim não pareceu o bastante.
Eu senti um turbilhão de coisas, tomei o “baque”, arrepiei a cada vez que a música repetia.
Sabe aquele filme ótimo que faz jorrar naturalmente as lágrimas? Lembrei de um em especial – porque esse virou um dos filmes da minha vida – chamado “Amour”, que, consequentemente, me destruiu também. Fez pensar em perspectiva de vida, e como parece intensamente lindo ter alguém para envelhecer junto. Uma história de amor que dura décadas. Isso destruiria qualquer pessoa.
Confuso, não? Por dentro, coração aos prantos, cabeça a mil, sabe? Quando você não sabe direito o que sente direito, mas sente uma porrada de sentimentos agindo de uma vez só. Ouvir a música triste que te deixa feliz, te faz melhorar, como se fosse uma tristeza boa. Ver seu filme preferido e chorar toda vez que aquela cena em especial te emociona como não emocionaria qualquer outra cena. O nascimento de um filho e como uma mãe mal sabe o que sentir, mas sente absolutamente tudo. Você desmonta, mas não sai do lugar, e nem tenta mudar nada, porque de tão destruído por dentro, em passar por uma determinada experiência tão boa, você não quer mais voltar ao estado anterior.

Em suma, é aquele momento tão bom, mas tão bom, que você não quer entender por não saber como se sente. Você só quer viver aquele momento de infinito.

Sentir-se assim é a melhor coisa do mundo.
Sentir-se “destruído”.

Meu super herói existe.

Quando criança, em partes do passado que ainda recordo, lembro me que a bondade alheia me fascinava como um super herói salvando um planeta. Como quando, por exemplo, meu pai voltava de uma pescaria – e algumas dessas pescarias eu participei – com uma sacola cheia de peixes e dividia com os vizinhos. Aquela família da esquina que sempre trazia laranja, do trabalho, humildes, e nos presenteavam como forma de agradecimento aos peixes. Existia uma fraternidade entre vizinhos, uma certa aliança de reconhecimento aos que se ajudavam. Tomando esse exemplo como modo de elucidar essa vertente da bondade, alguns anos depois eu entendi do que se tratava.

Reciprocidade.

Naquela época eu não sabia dar nome, hoje sei, e olha, entendo mais profundamente o que é além dessa palavra grande e pouco usada. Mas, me atentou, me ensinou como eu deveria proceder ao longo da minha vida.

Eu deveria ser bom acima de qualquer coisa para que o mundo fosse recíproco.

Acredito que a forma de bondade mais bonita é a que volta em bondade pra você. Bondade, não dinheiro em troca, não favores, nem chantagem ou alimento pro ego. Bondade que gera bondade pura.
Imagina que louco um mundo em que cada ato de bondade, seja ajudar uma idosa atravessar a rua, tentar fazer o dia de alguém melhor, talvez, fosse devolvido com a mesma moeda ao próximo? Eu ajudo você no seu dever de casa e você ajuda o seu vizinho a mexer no computador. Sempre pra frente, uma corrente, sem esperar nada em troca. Eu sei, eu sei, essa é uma ideia muito “batida”. Mas eu cresci aprendendo isso nas atitudes.

Lembro que meu herói, entre tantos que eu gostava nos desenhos e quadrinhos, não vivia numa tela de TV ou numa folha de papel. Ele era real. Ele usava uniforme sim. Tinha super poderes. Ele tinha o melhor poder: ele espalhava bondade em forma de ajuda. Aprendi com ele que gentileza é essencial, e a “recompensa” nem sempre vinha de quem era ajudado. Tudo bem, você não precisa provar ou demonstrar abertamente que é bondoso. Nesse caso, a reciprocidade vem de dentro, do coração pra alma.

Mesmo que o mundo ouse tirar as coisas boas de você, bata o pé. Aquela ideia “batida” é uma das coisas mais gratificantes em exercer que faz seu coração bater como escola de samba.

Batuca mesmo, faz barulho, sem esperar nada em troca. Reciprocidade mesmo é sentir o coração inundado de coisas boas, e essa é a melhor recompensa.

Eu nunca vi meu herói pedir nada em troca e o mundo tirou ele de mim. Tudo bem, vou dar ao mundo um coração transbordado de bondade.

Sentir sempre será mais importante que qualquer recompensa material.

Amor, meus amigos. Amor.

Cartas para João Paulo. 3

Olá, João.

Pedi pizza; estava com preguiça de cozinhar. Comer a própria comida enjoa às vezes. Isso me lembrou que você me achava enjoada demais para comer. Ninguém gosta de fígado, meu bem, e palmito não tem gosto de nada. Sem sal, eu diria, assim como nós no final.

Faltaram algumas coisas para devolver. Ou será que você guardou de lembrança? Vai ver nem precisa; aposto que é tão latente para você quanto para mim. Maldito dia em que você resolveu sair de casa para comprar aquela merda de pão daquela merda de padaria que você tanto gosta. Sua ausência definiu algumas certezas, essas que permeavam por muito tempo na balança da decisão. Pão da padaria na 15 é bem melhor que esse pedaço de água e farinha que você come todo dia. Aliás, anda comendo direito? Você parece magro.

Acho que eu vou adotar um cão, isso, um cão, e se chamará Júlio. Eu sei, é o nome do seu pai, mas ele sempre foi um amor comigo e eu não poderia homenagear melhor. Será que ele aprovaria? Falarei com ele. Ou não.

Ficou sabendo que vão aumentar o salário esse mês? Tomara que dê para você comprar umas roupas que se encaixem nesse século. Aquele seu suéter marrom é um crime para os desavisados. Você fica tão bem nele… Exalta seus ombros que não são tão largos.

Diga que mandei lembranças ao seu pai.

 

Com amor, Ana Priscila.

Cartas para João Paulo. 2

Olá, J.P.

Comeu as panquecas? Espero que sim. Minha mãe que fez e você sabe o quanto ela gosta de você. Bem pouco… Você esqueceu de colocar minhas coisas numa mala, ou algo do tipo, mas na verdade eu sabia que faria uma bagunça. Seu jeito desleixado de ser que tanto me cativou.

Daria um murro em você, juro, mas você não merece. Ou merecia até algumas horas atrás. Gostaria que algum lutador profissional te desse uma surra,  mas eu não quero ver seu rosto todo quebrado só porque eu me irrito com você. Sua calopsita estava sem o que comer; dei um pedaço de bolo para ela. Não sei se ela vai comer, então compra ração logo ou solta esse bicho, antes que eu te denuncie para alguém ou chame algum lutador para ir até a sua casa te forçar a isso. Hoje eu lembrei daquele dia em que passamos em frente àquela loja de rações e se encantou com essa calopsita. Nunca entendi esse seu gosto. Não podia ser um gato? Não, não podia.

Deixei um pedaço de bolo na geladeira, vê se come. Eu já comi metade. É do seu sabor preferido.

Solta logo esse bicho, deixa ele voar, assim como voamos cada vez mais um do outro. Quem diria, não? Vivíamos engaiolados um no outro. Acho que esse foi um grande erro.

Até mais, passarinho desleixado.

Comum.

“Bip bip bip bip bip bip…”. O som incessante que anunciou às 6 horas da manhã que José deveria acordar e vestir seu terno comprado no brechó para ir trabalhar mais uma vez. Em sua mente, brotava de todos os cantos a vontade de socar o despertador, chutá-lo, até que o mesmo estivesse reduzido a pedaços e não fosse possível que o maldito “bip bip bip…” anunciasse outra segunda-feira. José nutria ódio por segunda, odiava mais que futebol e política. José gostava do seu relógio de ouro (herança do avô, que foi passado de pai para filho) e da garçonete que apelidou de “Estrogonofe”, devido ela ter curvas que qualquer um teria vontade de deleitar-se por horas a fio, como se fosse um banquete cinco estrelas. José era um trabalhador comum, com uma vida comum, com uma rotina comum, com uma vontade imensa de morrer todos os dias quando acorda; bem comum.
Fones de ouvido para amenizar a balbúrdia do movimento intenso da ruas que fere os ouvidos sem misericórdia; música clássica no volume máximo para afogar a vida despudorada. Passa na cafeteria/boteco do Arnaldo e pede um café expresso e um pão de queijo, mas espera que “Estrogonofe” o venha atender, pois esse é um dos poucos prazeres que tem no dia, onde se sente seguro em tirar os fones de ouvido cravados na orelha. “Estrogonofe” achava que José era rico por ter um relógio de ouro, mas achava bem “pobre” o seu jeito de se vestir, excêntrico talvez. Como pode alguém que tenha um relógio desses vestir um terno tão surrado? Indagava-se a moça jovem e esbelta que não tinha sequer um neurônio na cabeça. José não ligava para a cabeça vazia da moça, só ia ali para apreciar o pão de queijo e as belas curvas.
Sem pestanejar, nem saber ao certo o motivo, tomou coragem e perguntou a ela se podia passar no final do expediente (às 18 horas; horário que coincidia com a saída de seu trabalho) para levá-la para casa, afinal, as ruas hoje em dia estão muito perigosas. “Estrogonofe” aceita, sorri, afinal, ele pode ser rico ou algo do tipo. Toda a atenção que José dava a ela todas as manhãs não era recíproca, mas ele não fazia conta, ou não percebia. Feliz pelo convite aceito, José se dirige sorrindo e com pensamentos impudicos ao seu trabalho de segurança que ficava ali perto da cafeteria, num prédio gigante, que nem ao menos fazia ideia do que acontecia dentro dele.
O sino da catedral anunciou 6 badaladas e isso significava que o expediente havia chegado ao fim, mas que o dia havia apenas começado; imaginava “Estrogonofe” caminhando até o seu apartamento para que o dia começasse de verdade e a rotina da segunda-feira mudasse pelo menos uma vez. Olhou no seu relógio de ouro e os ponteiros se posicionavam em linha reta, no sentido vertical. Seu relógio era eu maior bem material, seu orgulho de família, sua recordação mais querida e o alvo de um sujeito de cara encapuzada que apontava uma arma para ele quando olhou para frente ao tirar os olhos do relógio. Voz de assalto de um lado, desespero do outro e automaticamente as mãos de José se levantaram acima da cabeça. O assaltante pedia o relógio e o portador do mesmo implorava que não levasse seu maior bem, porque era a única coisa de valor que tinha. A arma empunhada agora contraia com força o peito de José, e o mesmo só conseguia fitar os olhos vermelhos do ladrão, enquanto as pessoas na rua passavam longe da cena, fugindo da possibilidade de se meterem em algum problema. José num momento de desespero, subitamente se vira e tenta correr, mas quando olha para trás o tempo de repente correu lentamente, como se fosse mágica, então viu a bala se aproximando de seu rosto. Mirou seu relógio de relance pela última vez antes que a bala o atingisse e, aquele momento lento, num ímpeto, acabou muito rápido.
“Estrogonofe” esperava impaciente por José. O rapaz trabalhava ali perto, já era para ter chegado. No relógio da avenida, onde também marcava a temperatura (32°, quente demais, sentia o suor que escorria pelas curvas) e um anúncio de propaganda, marcava 18:15. Achou que era hora de ir embora, se não ia chegar atrasada para ver o último capítulo da novela. Caminhou rumo a sua casa, enquanto José se encontrava no caminho rápido de uma bala e ela nem ia notar a falta do homem terça-feira de manhã.
Na calçada defronte a um prédio gigante, um corpo estirado com ferimento de bala na cabeça, de um homem comum, com um terno de brechó comum, encontrava-se em meio ao caminho das pessoas que o desviavam como se isso não fosse nada de mais. Uma morte comum nessa megalópole calamitosa. Andando como se nada tivesse acontecido, um sujeito comum de olhos vermelhos com um relógio de ouro no pulso rumava para uma biqueira.
No beco de uma favela o homem comum de olhos vermelhos tenta negociar uma dívida de drogas, mas o traficante diz que só o relógio não pagaria o que estava em débito e que o tempo havia acabado. Minutos depois o corpo de um homem de olhos vermelhos encontrava-se estirado no chão de uma viela escura de um bairro pobre, e um traficante vestido de terno surrado comprado no brechó, andava com um relógio de ouro no pulso em direção a cafeteria/boteco do Arnaldo, onde sentou-se e esperou até que fosse atendido por uma garçonete de curvas tão esbeltas que qualquer um teria vontade de deleitar-se por horas a fio, como se fosse um banquete cinco estrelas. Strogonoff ao ver o relógio de pulso de ouro, jurava que já tinha visto aquele homem antes, mas deu de ombros e achou que aquilo era coisa de sua cabeça.

Cartas para João Paulo. 1

Olá, João.

A essa hora já deve ter notado que sai de casa; pois bem, tive de tomar uma decisão sobre tudo isso e essa foi a minha decisão. Não finja que não sabe os motivos, nem venha me pedir explicações. Também não quero ouvir as suas. Deixei duas panquecas na geladeira para quando chegar do trabalho. Vê se janta ao menos, vai fazer bem. Você não come direito há dias e começo a suspeitar que só agora você percebeu que a minha comida é uma droga, assim como a sua às vezes também é. Vamos ser sinceros, não? Deixe minhas roupas no sofá que busco qualquer hora e vire os porta retratos para parede, ou queime todas as fotos, você decide.

Você me deve 120 reais, mas não precisa pagar, enfia onde quiser. Do mais, só o menos. Do menos, só o agora.

Matei você aqui dentro, então por favor, não me deixe que viva dentro de você. Vai ser difícil te esquecer se eu ainda morar aí dentro.

Com amor, ou o que restou dele.

Ana Priscila.

Papel higiênico, as duas irritantes e a Rainha Maria.

Ela tem manias que deixa qualquer homem louco.
Louco de raiva.
Não coloca papel higiênico quando a porra do rolo acaba e ainda me culpa por faltar.
Não ouve, se acha a senhora da razão.
Entra no banheiro e fica mais de uma hora para tomar um simples banho.
Imagino se ela tem noção do que ela canta.
Um dia eu derrubei a porta a ponta pé.
E ela estava meditando embaixo do chuveiro.
Não via nenhum tipo de substância incorpórea fluindo em meio ao vapor sufocante.
Via minha alma segregar o meu corpo.
Adoraria ver o fluído corpóreo vermelho saindo da boca dela depois de uns tapas.
Aí não pode, porque tem a Maria da Penha.
Maria é rainha, e ela, a princesa.
Princesa da irritação.
Explica meu estado de cólera frequente.
Vai trabalhar como se fosse numa festa de gala.
Alguém precisa alertar ela que para ser secretária não precisa se produzir tanto…
A chefe dela é mulher, mas é feia que dói a alma.
Aposto que ela vai assim para ver se atinge a velha rica e feia.
Ela me atinge da mesma maneira que meu dedinho atinge a quina da parede.
Volta reclamando de tudo, pede que eu prepare um drinque, com uma pedra de gelo e ouvidos para eu gastar.
Quando eu apaguei o cigarro na testa dela e apaguei com uísque, provando meu amor, ela se irritou, ia até a delegacia exigir que a Rainha Maria me punisse.
Não foi.
Vai ver ela seja o capeta na minha vida.
Mandei ela embora duas vezes, e numa delas, ela levou minha TV.
Ela sempre volta.
Ela e a TV.
E eu nem sei porque eu recebo e dou moradia para essas duas.
Uma me irrita e se move, a outra não se move e me irrita, mas essa última me diverte às vezes.
Me irrito e mando ela à merda, xingo e jogo o copo na parede.
Ela se cala, tira os sapatos, e pela primeira vez os guarda embaixo da cama, não em qualquer lugar.
Acendo um cigarro e passo para ela.
Ela fuma calada, emburrada, não com medo, mas furiosa.
Sai da sala e entra no banheiro com roupa e tudo.
Fumando, ou tentando fumar aquele cigarro molhado.
Finalmente paz.
Ligo a TV, sento e relaxo.
Ela começa a fazer as malas, mesmo estando toda molhada.

Antes de sair eu pedi que ela colocasse papel higiênico no banheiro.
E pela primeira vez, ela colocou antes de sair da minha casa.